No meio do caminho havia um Dragão
De certa forma gosto de como as coisas acontecem, porque independente de quanto controle tenha da situação, ela ainda consegue vida própria e “funciona” da maneira que bem entender. Eu mal tinha publicado em meu primeiro livro quando sugeri ao Erick da Draco uma antologia que tivesse como mote os dragões, que não só dão nome à editora como também são os seres mitológicos mais populares e celebrados na história humana, ainda mais agora em nossa sociedade alimentada pela cultura pop. Lembro que essa sugestão ficou e eu nem tinha sido respondido a respeito dela no gtalk, então imaginei que ele tivesse ignorado ou acabou não recebendo. No fim, deixei por isso mesmo graças ao meu asco de ser insistente e chato com os outros, isso certamente me fez e me fará perder uma centena de oportunidades, mas felizmente essa acabou não sendo uma delas.
Um bocado de tempo passou-se desde então, engavetei um romance e comecei outro, arrumei um emprego novo, recebi a notícia de que participaria do segundo volume da antologia Erótica Fantástica, comecei a faculdade, e daí em diante. Um dia o Erick apareceu perguntando se eu não queria organizar junto com ele a coletânea que eu tinha proposto e, dessa forma, aproveitar tanto o aniversário de três anos da editora quanto o ano chinês do Dragão, o qual tinha passado totalmente despercebido por mim. Daí para estabelecermos as regras de submissão, o número de participantes e até a data de lançamento foi um pulo. Em menos de uma semana já tínhamos o livro anunciado, o nome Dragões escolhido e os primeiros originais chegando. Mas como tudo o que pode dar errado eventualmente encontra seu caminho para dar errado, o livro teve seus obstáculos. Para lançarmos a tempo o prazo de análise, divulgação e edição dos textos foi muito curto, me arrancando consideráveis horas de sono e exigindo um trabalho grande nos textos, o que por diversas vezes me fez questionar a qualidade final do trabalho. Claro que acabamos atrasando. Tanto que o livro prometido para 20 de novembro foi atrasado para 21 de dezembro, sobreviveu o fim do mundo e viu outros contratempos que fugiam ao meu poder empurrá-lo outra vez para 20 de fevereiro — quatro meses além do esperado. Mas essa não será a primeira e nem a última vez que coisas assim acontecem com livros.
Sou muito mais um escritor que um editor, não me vejo tirando o máximo de cada autor para conseguir a melhor história possível. Eu vivo tendo impulsos de levar o escritor pelo caminho que eu tomaria no texto, e isso somado à minha inexperiência com a coisa sempre vai deixar o trabalho muito mais difícil. Boa parte dele foi eu me policiando para não perder o controle e puxar os autores pela mão para que pudessem fazer tudo da maneira que eu faria.
Acho que por esse detalhe tenha ainda mais orgulho da Dragões por ser apenas meu segundo livro oficial (o primeiro em consideração) publicado. Eu que não costumo gostar dos meus trabalhos admito certa predileção pelo conto que escrevi para essa antologia. As mulheres da minha vida começou como uma piada, já que o tema eram dragões, e terminou como um dos meus melhores trabalhos, ainda que o final não me agrade tanto quanto gostaria.
Dragões foi uma realização e, acima disso, uma escola para mim como autor e leitor. Agora p0sso olhar para outras publicações de uma forma diferente e fazer jus a elas assim, porque participei de todos os estágios possíveis da produção de uma. Talvez com isso seja mais compreensivo com meu editor nos próximos livros que publicar. Sinto falta de não ter atualizado por aqui durante o processo de edição e produção do livro, talvez deva fazer isso com o romance.
Reminiscência
Escrevi este texto há quatro ou cinco anos, já tinha publicado ele por aqui antes, mas por motivos que transcendem minha própria noção do que é racional eu tirei do ar por um bom tempo. Recentemente, organizando textos mais antigos para uma antologia própria eu deitei os olhos nesse conto novamente e decidi revisá-lo para dar mais material ao livro. Mudei bastante coisa e não quis deixá-lo guardado por mais tempo, então decidi republicar no blog. Não gosto do título, queria ter pensado em um outro, mas não foi possível.
- Que fique clara uma coisa nessa conversa: sou um fracasso! Não precisa exaltar, ou mesmo me lembrar disso, minha consciência o faz por conta própria com um êxito digno de memória, se não o fosse de pena – foram as primeiras palavras de Marcel ao encontrar-se com Álvaro, amigo de infância, pelo qual se habituou a tratar como Gambelli, seu sobrenome. Essa foi uma daquelas chamadas emergenciais que ambos faziam em momentos onde apenas o outro seria capaz de ajudar.
- Há quanto tempo fazemos isso? – Álvaro ignorou o discurso introdutório, sabendo que era isso o que seu amigo esperava.
- Sei lá, desde os doze? – Marcel tentava puxar a informação da memória, se distraiu com uma mulher de vestido que passava pela rua, até pescar a resposta. – Sim, desde quando foi chutado pela sua professora de Educação Física – sorriu – E começamos a nos reunir no play do meu prédio.
Eles não mais se encontravam lá, Marcel mudara-se aos vinte e três para morar sozinho, em uma quitinete no Centro. Agora usavam o bar que Álvaro herdara do pai. Ele até fechava-o mais cedo para que pudessem ficar a vontade. Exceto às sextas, ele não amava tanto o amigo a ponto de destruir o próprio negócio. Além do mais, ninguém estava interessado o suficiente neles para dar ouvidos para o que conversavam ou até mesmo para entender do que se tratava.
- Agora pode dizer o que me obrigou a fechar o bar às oito da noite em uma quarta-feira e me fez ouvir você choramingando sem nem dar um oi ou dizer que a irmã continua gostosa? – Álvaro disse entre risadas enquanto ia para trás do balcão e pegava duas garrafas de cerveja na geladeira, que Marcel de pronto aceitou e abriu, tomando direto do gargalo.
- Preferi ir direto ao ponto. Não vou ter os ataques de carência que teve quando aquele cego ficou com seu emprego, não preciso disso, Gambelli – recuou, temeu pela reação do amigo com a lembrança do fato, então morto entre eles.
- Ok, então. O que houve? – disse, sem dar bola para a provocação.
- Nada de grave, só vim vomitar minha filosofia barata nas suas canecas de chope – Álvaro virou para ele um olhar engraçado, de quem não engole a conversa. – Não vem com essa cara pra cima de mim, Gambelli, é sério! Não foi nada grave, mas foi importante ao ponto de me fazer enxergar as coisas como realmente são.
- Não tomou nem metade da primeira garrafa e já vem com esse papo de bêbado?
- Não é papo de bêbado! Foi algo que me aconteceu e abriu meus olhos pra uma verdade que de todos fica escondida! – Marcel virou tudo em uma golada.
- Ok, e que verdade é essa? – Álvaro finalmente abria sua garrafa.
- A de que o amor odeia a nós todos!
- Quer dizer, supondo que o amor é uma entidade física?
Um silêncio constrangedor tomou de sopetão todo o lugar, Marcel fazia o som de estalos com a boca enquanto tentava formar o raciocínio para dar a resposta mais satisfatória possível. Nisso, Gambelli terminou sua garrafa, e foi até a cozinha, nos fundos do bar, buscar algo para comer.
Voltou com um salgadinho gorduroso, que pareceu agradar aos olhos pensativos e inquisitivos de Marcel, que decidiu pular sobre o balcão, puxar a porta da geladeira com as pontas dos dedos, e com eles, apanhar outra garrafa, quase a derrubando.
- Bêbado.
- Gordo.
Álvaro riu, virou-se e pegou outra garrafa para si. Abriu quando o amigo terminou de beber a dele.
- Onde eu estava? – fez o barulho, irritante, de estalos mais uma vez. – Ah, sim! O amor é uma entidade física quando parasita nas pessoas, meu amigo. Porque é isso o que ele faz, parasitar. Toma controle dos mais fracos e os faz rastejar, perder a dignidade, o amor próprio, a liberdade. Os prende a todas aquelas coisas que são menos importantes do que eles mesmos. Todo o resto – esperou Álvaro terminar sua garrafa. – Descobri ao ser tomado por esse veneno, ser diminuído, ludibriado, esquecido, chutado. E isso tudo aconteceu enquanto as coisas pareciam bem, já que aquilo que te infligem só é sentido no momento em que o parasita não tem mais o que sugar.
- Você sabe que isso não quer dizer coisa com coisa, não sabe? – o som das buzinas na avenida movimentada ao lado do bar eram uma trilha caótica.
- E mesmo assim, estou certo de que já teve essa exata sensação. A de que foi usado, do fracasso, de que não foi suficiente, ou nunca vai ser. O momento patético pelo qual todo barbado passa para se enxergar humano e estúpido – Álvaro titubeou ao responder, o que fez Marcel continuar o monólogo. – Viu só? Todo mundo passou por isso, ou passará em algum momento. Mas sabe o que te torna ainda mais digno de pena? – a resposta foi requisitada com silencio. – No fim, quer aquilo de volta, exatamente como era. Quer de novo, de novo e de novo. Mas o mais triste, é quando quer novamente com tanta precisão, que deseja até a mesma pessoa a quem não foi satisfatório, com quem talvez tenha falhado, pura necessidade mesquinha; já que não aguenta ficar um minuto sequer sem falar com ela sobre qualquer assunto. Sente falta da voz, do sorriso. Isso tudo dói agudo, mas precisa pensar que vai ter tudo de novo porque é o único raciocínio que faz bem, ainda que não faça sentido.
Ele levantou-se do banco, foi até uma janela do bar que ainda não havia sido coberta pela camada de aço e observou a rua, com os carros parados, pedindo por movimento e passagem.
- Seu silêncio mostra que se sente exatamente igual. Agora também se pergunta como sei de tudo isso – vira-se para o amigo. – Deveria se perguntar há quanto tempo não nos reunimos aqui.
- Três anos.
- Isso mesmo! Três anos! E qual foi a última vez que nos reunimos? – aproximou-se do balcão novamente.
- No hospital. Antes de… – voz embargada. Silencio.
- Antes de eu morrer, Gambelli. Antes de eu dizer “até mais” para toda essa rotina de merda. – foi para trás do balcão e deitou a mão fria no braço do amigo. – Mas ainda assim, quando alguém pisa em você, precisa de mim pra pensar no que acontece por dentro. Me quer pra colocar suas ideias no lugar. Pra fazer aquele discurso do começo lembrando quão patético é, só que falando por mim. Mas não se preocupe, meu amigo, todos precisam de algo assim, você só exteriorizou um pouco mais, já que precisava acalmar essa dor que nunca sentiu e não sabe como tratar. Tudo o que tenho para você é um conselho: pare de se lamentar e volte a ser aquele Álvaro com o qual cresci.
Há alguém decorando sua estante
É engraçado quando alguém te deixa curioso, mas você não conhece a pessoa o suficiente. Então sente-se impulsionado a falar com ela, mas não faz ideia do que conversar, então nunca de fato puxa assunto. Aí acaba com a pessoa lá, de enfeite na sua vida social, parecendo um ótimo abajur no seu Facebook, uma beleza de estante de livros no seu Twitter, nas festas e no bar é um daqueles potes de biscuit que só fazem juntar poeira, mas que sua mãe deu e sempre pergunta dele quando vem te visitar – então tem que ficar ali, em cima da estante, te encarando.
O indivíduo fica ali, num canto enquanto você segue com a vida, eventualmente olhando e lembrando o quanto este enfeite parece interessante. Mas deixando ele lá, porque não consegue pensar em mais nada além disso, em como chama sua atenção. E não é como se você não tentasse ou fosse inapto socialmente a ponto de uma pessoa ser inalcançável, parece que existem certos seres humanos no mundo que estão totalmente fora de alcance para alguns dos outros, é como Superman e Kryptonita, ou o Coisa e basicamente qualquer um. Você se torna inapto em interagir com aquela pessoa em específico, ela carrega algum tipo de ponto fraco.
E você nem tem grandes planos ou intenções para ela, pode só querer mais alguém com quem sair para tomar cerveja, ou ir a shows, ou assistir jogos, jogar videogame ou assistir filmes com os amigos. Não precisa querer um romance para se confrontar com um sujeito que te parece interessante, mas com o qual nunca sabe como interagir. Então fica lá, repousando, o enfeite.
Geralmente isso se resolve com o tempo, com outros amigos intercedendo, algum gosto em comum, uma coincidência. São várias as maneiras desse muro cair, o que não necessariamente é uma boa saída. Porque, imagine, esse sujeito pode não ser alguém tão intrigante quanto você imaginava ser — quase nunca é. Talvez essa seja parte da graça da curiosidade e de uma certa dose de ignorância em alguns assuntos, sua imaginação trata de cuidar do resto das pontas soltas na história toda e, por menos criativo que alguém seja, as coisas sempre serão mais interessantes na cabeça dele.
Quando você para por um momento e observa toda a situação, fica imaginando se o melhor é deixar o ornamento ali, bonito onde está, ou se vale mais a pena tentar se aproximar dele, talvez tentar mudá-lo de lugar, buscar saber mais sobre o que o torna tão interessante assim ou descobrir que na verdade não há nada digno de nota lá e que você só estava curioso. Talvez por isso você gasta tanto tempo só olhando, porque nunca sabe quando vai se cansar de admirar ou se o enfeite é fácil de quebrar.
Sobre ateus, crentes e animais que riem
Costumo dizer que só existem duas coisas que gosto menos do que arroz com passas: ateus e crentes. Pois é, menos até que comunistas ou que o Rob Liefeld. Meu despeito por ambas as classes vem justamente do despeito mútuo que elas cultivam entre si. Sou agnóstico, por falta de melhor definição no latim para “não me importo”, e não ligo se alguém acredita em Jeová, Alá, Zeus, Dagda ou Danu, Odin, Rá, Brama, Elvis, Marilyn Monroe, Godzilla, Cthulhu — ou mesmo em deus nenhum. Não me sinto ofendido ou mesmo incomodado pela presença ou ausência de um ser superior. O que me incomoda, na verdade, costumam ser os fã-clubes deles, as pessoas. Animais feitos de amontoados de átomos e almas como todos os outros, mas que dos quais se diferenciam pelo curioso dom de rir de si mesmos.
De certa forma, concordo com Robert A. Heinlein em seu romance Um estranho numa terra estranha (1961) quando ele diz que aquilo que diferencia os homens dos demais animais é nossa capacidade de rirmos de nós mesmos. Porque admitamos, não é a faculdade da linguagem, já que é muito mais coerente vermos o canto das baleias como uma forma complexa de linguagem que ainda não deciframos; diferença também não encontramos nas emoções, a maioria dos animais expressam tristeza e felicidade, elefantes sentem saudade. Elefantes podem até, de fato, morrer de saudades.
Sociedade e hierarquia então, nem se fala — creio até que alguns animais sejam mais organizados socialmente que nós. Uso de ferramentas? Não, chimpanzés também fazem isso; o desenvolvimento de comércio e economia são irrelevantes, o homem já era homem antes de depender deles. Também não para a auto-consciência, já que os golfinhos a têm, e nem para a noção da própria sexualidade também presente nos macacos bonobo que a usam muito melhor do que nós. Alguém pode dizer que as hienas riem, macacos também, mas os primeiros riem o tempo inteiro e os segundos de tudo, menos de si mesmos.
Dá para se estender nisso por muito tempo, até chegar à conclusão de que a única diferença real é a de que rimos, mas rimos de nós mesmos, de nossas dores, de tudo o que já fomos e de tudo o que nos tornamos. Toda a filosofia, a arte, as letras, os conceitos e a religião são resultados dessa curva evolutiva pela qual passamos. As religiões e as ciências, dessa forma, poderiam até ser vistas como diferentes maneiras de tentar explicar a mesma piada.
No vídeo acima a intenção dela é justificar o motivo pelo qual sente essa necessidade inerente a boa parte dos ateus de criticarem e menosprezarem outras religiões. Necessidade esta que, é preciso dizer, não se trata de um comportamento exclusivo deles. Parece que o pré-requisito de uma crença é exatamente criticar às outras. Mas isso é compreensível, estão vendendo um produto.
O grande porém disso tudo é que se você realmente acredita em alguma coisa e se tem tanta certeza de que ela seja “a verdade”, você não precisaria ter de confrontar e afirmar isso o tempo todo, ou vai acabar parecendo que aquele a quem está tentando convencer é a si mesmo. As pessoas acreditam em coisas diferentes e defendem idéias distintas porque, bem, as pessoas são diferentes e mesmo que seja meio batido, elas precisam ser lembradas disso o tempo inteiro. Ok, eu entendo, nos comportamos de maneiras bem estúpidas quando encontramos alguém que tenha a mesma forma de pensar que nós. Mas sejamos complacentes, quando um grupo de indivíduos está formado, eles deixam de ser humanos e tornam-se uma espécie completamente nova, que gosto de chamar de turba.
Quando tornam-se turbas, as pessoas abandonam a lógica. É uma atitude natural considerando que essa nova criatura ainda é primitiva e não tem qualquer contato com os conceitos básicos de civilidade. Assim como acontece com os animais mais simples, a turba só é capaz de viver em função de si própria. Nesse caso, apenas quer saciar sua fome pela certeza alimentando-se de seus ideais e bebendo da discordância para matar a sede que sente pela razão. Isso deu em uma quantidade considerável de problemas; algumas guerras, massacres, agressões, ataques, entre tantas outras coisas. O problema é que as turbas se encaixam em um sem número de categorias, a religiosa é somente uma delas e, sinto informar, nem todos os problemas são de responsabilidade desta turba em específico — por menos que eu queira discordar deste decote.
Claro, tivemos as Cruzadas, de certa forma tivemos o 11 de setembro e temos a Faixa de Gaza. Mas o Holocausto não teve motivos religiosos, a eugenia em si não tem qualquer traço teológico em seus fundamentos — pode virar uma parte deles, mas ainda assim não com tanta importância –, todas aquelas pessoas morreram porque não se adequavam ao que os nazistas estabeleceram como parâmetros para sua “raça ideal”. O antissemitismo era parte integrante da cultura da época, tinha muito da demonização dos judeus por parte da educação cristã; as pessoas são naturalmente cruéis, até meio sádicas, mas não são psicopatas, não em sua maioria. No início do século XX, o costume era praticar o ódio aos judeus, mas ainda assim ninguém também queria ver um povo inteiro massacrado. Até porque, ainda que tivessem sido a imensa maioria, os campos de concentração não eram compostos apenas de judeus. Lá também podiam ser encontrados comunistas, homossexuais, ciganos, eslavos, deficientes, ativistas e católicos. O que é engraçado, já que é justamente à educação católica que Hitler e Himmler tiveram que a culpa do Holocausto é atribuída.
Pelo que vejo, todo mundo teria menos motivos para protestar contra as crenças uns dos outros se, bem, protestassem menos contra as crenças uns dos outros. Faria muito bem a todos se percebessem que cada um ri da própria desgraça da maneira que melhor convier, eu viveria muito melhor num mundo onde tentassem mudar menos a cabeça das pessoas e tentassem mais deixar cada um cuidar da própria vida.
Nelson Rodrigues formou meu caráter
Eu estava digerindo esse texto quando soube da morte de Neil Armstrong, o primeiro homem a pisar na Lua. senti vontade de escrever sobre ele e como as pessoas esquecem fácil quem precisa ser lembrado enquanto este ainda está vivo. Penso em diversos motivos pra isso, mas vou deixar para uma outra ocasião.
Nelson Rodrigues completaria cem anos na última quinta se ainda estivesse vivo. Claro, se ainda estivesse vivo, ninguém se lembraria disso, ou mesmo não saberia da existência dele — os gênios quase nunca chegam aos cem, eles gastam tudo o que têm para apresentar ao mundo assim que podem, então quando isso acaba, eles deixam de viver e passam a apenas existir, talvez se esforçar em mostrar mais algo, a raspa do tacho que alguns podem acreditar ainda haver. Mas no fim, os gênios dão tudo de si e, ao terminarem, apenas sentam e esperam a Hora chegar.
Não vivi o auge da influência que o Nelson Rodrigues teve na cultura brasileira, tive pequenos lampejos disso com reprises de filmes, peças de teatro e com séries de TV como A vida como ela é. Mas o impacto que os textos dele tiveram em mim não foram demorados, seu pessimismo, sua crueza, a visão honesta que tinha do mundo que habitava e dar putaria que o conduzia era algo que ainda não tinha visto e só encontraria novamente em Bukowski, mas ainda assim, com bem menos inspiração que Rodrigues.
Acho engraçado o caminho para o qual a sociedade conduziu a si própria. Hoje podemos dizer estar cercados por pessoas que construíram aquilo que somos, mas com as quais jamais tivemos contato. Não consigo decidir se essa sensação é mais frustrante ou mais curiosa, há aquele indivíduo ao qual você pode sem hesitar afirmar que fez de você quem é hoje, mas não tem nada que a essa pessoa pode ser dita porque ela está muito distante da sua realidade, ou também pode estar morta. É uma situação engraçada, porque não pode sequer agradecer tendo certeza de que o sujeito recebeu o recado, mas fazemos o que podemos, como escrever um texto lembrando que o sujeito faria seu centésimo ano miserável nesse mundo desperdiçado caso ainda estivesse vivo como forma de agradecimento.
Espero não precisar repetir algo assim muitas vezes mais, agradecer a alguém in loco ainda é uma das poucas situações absolutamente necessárias e gratificantes que ainda tentamos cultivar.
A realidade da ficção
Há alguns dias, físicos da Universidade de Leicester divulgaram um estudo onde provam por A + B que a capa usada pelo Batman nos filmes da trilogia de Nolan seria incapaz de servir como amortecedor das quedas do vigilante em algumas cenas. Talvez a proposta de oferecer um mundo mais palpável para a audiência talvez tenha chamado esse tipo de coisa para si, mas ainda assim é mais um sinal do quanto as pessoas vêm ficando chatas com o passar do tempo.
A ficção não é chamada assim sem razão nenhuma, todo seu conceito gira em torno de se contar uma história que na verdade não aconteceu. Isso supostamente deveria lhe garantir a possibilidade de enlouquecer dentro de seu contexto. Quer construir um foguete no quintal de casa e viajar ao espaço por ele como aconteceu com Flash Gordon? Vá em frente! Se isso estiver dentro da realidade contextual à história, é perfeitamente possível e completamente aceitável. Vai de encontro aos fatos científicos do nosso universo? Sim, mas não importa ou não deveria.
Como bem lembrou o vencedor do Nobel de Literatura Mario Vargas Llosa “a ficção, por definição, é fraude – algo que finge ser real embora não o seja”. Ainda que “fraude” seja um termo meio forte nesse caso, ele continua sendo aplicável já que, de fato, todas as obras deste gênero são mentiras disfarçadas de verdade, criadas com o objetivo de fazer aqueles que as consomem afundarem em suas realidades duvidosas cheios da certeza de que aquilo, ali dentro, é real. A ciência, a verdade e até as morais de qualquer filme, HQ, livro ou jogo ficcional só precisam ser plausíveis para a história que é contada, não para quem a está consumindo. Porque o principal poder da ficção é justamente fazer seu leitor/espectador/jogador acreditar em tudo aquilo que ela apresenta sem discutir ou duvidar.
Às vezes tenho a impressão de que a ciência vem aos poucos deixando as pessoas mais chatas. Com o avanço dela todos querem, cada vez mais, ver explicações onde ela não é necessária; a compreensão gradual que temos acumulado do mundo ao nosso redor está se estendendo aos mundos imaginários. Agora não nos basta ler e aceitar o que aquele livro tem a oferecer – independente do quão convincente o autor dele tenha sido –, agora precisamos que tudo o que nele foi descrito esteja de acordo com as leis que regem o mundo real. O nosso algumas vezes tão chato mundo real.
Agora os filmes, livros, quadrinhos e até os jogos tentam se abraçar à realidade com todas as forças, por mais desnecessário que isso seja. Agora os deuses são alienígenas, o Hulk não é bem o resultado de exposição a ondas gama e tecnologia avançada precisa ser explicada. A magia da ficção científica e até a magia da própria mágica estão sendo amenizadas pela chatice da realidade. Se Alien tivesse sido criado hoje o sangue ácido dos monstros não dissolveria as naves – já que elas são feitas com um material resistente a esse tipo de substância e que é necessário para viagens espaciais –, os sabres de luz precisariam ter sua tecnologia esmiuçada, a Força careceria de explicações. Isso pra não falar dos sons se propagando pelo espaço ou da chuva de sapos.
Estamos tão apegados a explicar nosso mundo que acabamos esquecendo de fazer as perguntas, o que sempre foi o trabalho da ficção. Nos levar a perguntar se algo é possível e nos convencer a tentar tornar aquilo verdade como fez Julio Verne com o submarino e o fax, Arthur C. Clarke que desenvolveu o conceito do satélite artificial, Edward Bellamy e o telefone, entre tantos outros casos.
Essa visão contemporânea também é negativa de outra maneira: agora os autores sentem tanta necessidade de dar explicações plausíveis para tudo o que acontece que muitas vezes esquecem que estão contando uma história ou até se cansam e ignoram até a crença que uma boa narrativa precisa ter, deixando as coisas acontecerem sem que sejam explicáveis para o mundo real ou mesmo que pareçam plausíveis no mundo imaginário.
Hoje as reações nas salas de cinema são quase sempre “que mentira!” ao invés do sorriso espantado do qual sinto falta quando algo aparentemente impossível aparece em tela. Algumas vezes isso me faz pensar se não estamos regredindo ao invés de progredindo quando a fantasia passa a perder espaço e tudo precisa ser sombrio e realista mesmo quando o melhor é que seja maravilhoso e inexplicável.
A hora certa
Indie Game: The Movie me fez pensar a respeito da minha própria condição, olhar pra mim mesmo. É engraçado, mas independente se num filme, num livro, em quadrinhos ou num video game, as fragilidades e preocupações de quem está diretamente envolvido na parte criativa do trabalho são basicamente as mesmas. Principalmente quando isso tudo deixa de ser pessoal e passa a querer ganhar o mundo.
Você sempre está inseguro sobre isso, tudo o que faz carece de um voto de confiança. “Será que essa é a hora? Que estou pronto?” se torna uma pergunta constante. Não importa quanto você acredite que não liga para a aprovação do público, que fez para si — se você se propõe a disponibilizar isso para um público, a opinião dele é o que de mais importante existe. Porque, de certa forma, a aceitação daquilo que faz é uma forma de se sentir aceito como a pessoa que é.
E fico sempre me perguntando isso enquanto trabalho no meu primeiro romance. A parte mais angustiante que é publicar pela primeira vez já passou, ainda tenho outras três publicações a caminho e continuo não achando que estou pronto pro romance. A cada vez que travo em um trecho, que me perco ou fico insatisfeito a insegurança surge, a incerteza me toma. Acho que se tivesse uma resposta instantânea seria mais simples prosseguir com o trabalho, da mesma forma que acho que isso tiraria toda a graça do alívio da conclusão e da satisfação da missão cumprida.












