Ideias Soltas no Ar

As ideias podem não ter mais acento, mas ainda continuam as mesmas (ou quase).

Lorens e o Dragão – Parte I

Publicado por Marco Rigobelli em 04/06/2008

Vou começar a postar semanalmente as partes desse meu conto ainda inacabado. Nele tentei usar um estilo narrativo semelhante ao das prosas antigas, mas mesmo assim, sem perder o meu próprio.

Ele conta a história que mudou o modo de ser dos elfos no Mundo fantástico de Mirsha. Tudo graças a um dragão que não se sabe quando nasceu, se morreu ou sequer se realmente existiu.

LORENS E O DRAGÃO

Mais uma vez, lá estava sentado no mesmo palco no qual sentava todas as semanas nos últimos cinco anos. Suas vestes acusam de maneira gritante o fato de ele ser um bardo, mas nem precisava, todos naquela cidade o conhecem, principalmente as crianças sempre tão fascinadas por suas histórias. Ele é um elfo. Sua elegância, suas belas feições e suas inconfundíveis orelhas típicas da raça mostram isso com clareza. Ele tem longos cabelos azul turquesa, roupas amarelas como o sol e verdes como a tenra folha de um jovem carvalho, da mais pura seda tecida pelos mais habilidosos tecelões das terras dos elfos.

Sua aparência não revelava, mas ele tem o que pode ser considerada meia idade pelos humanos, talvez por isso ele conheça tantas lendas, contos, musicas e poesias. Ele pode ser considerado um bardo diferente, pois nunca usa nenhum instrumento musical além de sua própria voz para acompanhar suas narrações.
Entre os humanos ele é conhecido como Loui, mas seu verdadeiro nome em élfico é Louiranill Yallurën.

Esse é o Dia dos Heróis, uma data muito importante para o reino de Allucar. Nesse dia são feitos muitos desfiles e todos os bardos que estiverem dentro dos limites do reino são obrigados por lei a contar uma historia épica sobre um grande herói conhecido ou não para quem estiver passando. As penas são muito duras para os bardos que não acatarem essa lei.

Loui havia acabado de voltar de sua costumeira viagem onde ele busca inspiração para novos contos e procura novas lendas para povoarem os sonhos das crianças. O elfo se sentava mais uma vez naquele sempre belo palco confeccionado na mais nobre madeira de jacarandá, é possível ver os sulcos da arvore ainda viva, porém, aquele palco estava muito bem encerado e dele exalava o perfume semelhante ao de um belo buquê de flores silvestres. Diferente da maioria dos bardos que preferem estar sempre em campanha e uma vez ou outra compartilham seus contos com um público improvisado, Loui adora voltar sempre ao mesmo lugar e se apresentar para os mesmos rostos conhecidos.

Naquele dia, diferente do que sempre acontecia. Foi o público e não o bardo quem escolheu o tema da história, todos queriam ouvir uma lenda sobre algum grande herói elfo. Então, Loui decidiu que contaria a maior lenda existente entre os elfos até hoje, esse conto é passado de geração em geração entre o Belo-Povo, o público presente na Estalagem do Dragão Adormecido, a maior de Lun capital de Allucar, seriam os primeiros não elfos a ouvirem essa história…

Há muito tempo atrás, quando os elfos dominavam todo território ao sul de Mirsha. – começou a narração Loui, todos festejavam muito, mas paravam sempre que o elfo dizia algo na esperança de que ele estivesse começando sua narração. Dessa vez, eles se calaram para não interromper até que o conto estivesse terminado. – existiu um entre todos os elfos que era muito respeitado por todos.

Seu nome era Lorenstanttalla Lurumiel. – Loui fez uma pausa como se tentasse encontrar memórias perdidas em seu subconsciente. – “Lurumiel” significa “Guardião do Belo-Povo” na língua dos humanos. – Foi à última coisa à parte da história dita pelo elfo até o fim da narração.

Ele era muito respeitado entre os elfos, todos o adoravam e sempre se sentiam lisonjeados ao gozarem de sua presença. Ele era um exímio guerreiro, porém tinha um defeito, era preconceituoso para com qualquer outra raça sempre os considerando inferiores aos elfos em tudo o que se possa imaginar. Isso o tornava mal-visto entre os outros povos, impedindo ele de ir para regiões além dos limites das terras dos elfos, mas isso não era um problema pra ele, ele se sentia muito bem dentro de seu território e sabia que lá teria muito mais vantagem durante um combate do que em qualquer outro lugar.

Mas as belezas e riquezas do império dos elfos eram muito mais cobiçadas do que as de qualquer outro povo, as obras de arte do Belo-Povo eram muito valorizadas, sendo que algumas delas eram mais caras do que castelos! E as armas dos mesmos, tão belas quanto mortais, eram muito mais custosas do que qualquer peça forjada pelo mais habilidoso anão! E isso não agradava Lorens, ele considerava isso prejudicial para a cultura e a pureza da raça. Sem contar o quanto ele temia que poderosos ladrões tentassem se apossar da cultura de seu povo. Para ele sua missão era essa, proteger a honra de seu povo. E essa missão mudaria sua vida…

Após o equinócio de outono, as folhas apenas começavam a cair, algumas mal haviam ficado amareladas. Começou a correr um boato em Nauranttallasa de que um dragão milenar tinha invadido o território dos elfos, isso trazia muito medo para eles, pois sempre foi notória a cobiça e a fascinação dos dragões por riquezas e itens valiosos. Isso gerou varias equipes de busca e extermínio atrás desse dragão, ele nunca foi encontrado, ou não quis ser. Mas por algum motivo Lorens acreditava que ele iria de encontro aos elfos, que o dragão seria o primeiro a fazer contato.

Já tinha se passado uma semana desde que a noticia do dragão havia se espalhado entre todas as cidades e vilarejos elfos, todos estavam preparados para o pior, mas muitos já consideravam essa historia um blefe espalhado por alguém querendo ludibriar as autoridades com piadinhas de mau gosto. Até que o dragão resolveu dar a luz de sua graça na capital do império élfico.

Ele era ao mesmo tempo aterrador e magnífico! Quem o via ficava instantaneamente paralisado, não se sabe se pelo pânico ou pela beleza daquele ser. Ele era gigantesco! Tinha o dobro do tamanho do palácio imperial, suas escamas eram de um verde esmeralda profundo, reluzente e hipnotizante. Ele tinha olhos verde-claros intimidantes, porém, gentis e sábios. Muitos sábios dizem que os tolos e pobres de espírito que olhavam seus olhos ficavam cegos por não suportar tanto conhecimento e poder. Suas feições eram serenas, diferentes das dos outros dragões sempre tão furiosas, ele não parecia ser mau, mas era um dragão e não se pode confiar neles. Suas asas eram majestosas, tinham quase o comprimento de seu corpo da ponta da cabeça até a de sua cauda, o couro nelas era castanho-escuro. Qualquer leigo que visse aquele dragão acreditaria que ele havia nascido há pouco tempo, uns 80 anos, ele era jovial demais para ser um dragão ancião. Mas poucos conseguiam imaginar sua verdadeira idade.

Lorens foi o primeiro, a saber, da presença da fera na cidade, ele prontamente foi até onde o dragão estava para saber quais suas intenções na imaculada cidade dos elfos. Ao ver aquela exuberante fera pairando sobre o reino, Lorens pareceu recuar por um momento, mas logo se pôs a falar com ele.
- O que queres aqui nas terras de um povo superior ao teu? – perguntou Lorens de forma extremamente ríspida e arrogante.
- Vejo que os elfos não perderam sua prepotência típica. – retrucou o dragão demonstrando seu pouco interesse por aquela raça, sua voz era grave, rouca e penetrante como a de um velho e poderoso mago, ficava martelando por horas e horas dentro da cabeça.
- Como ousa zombar de meu povo monstro? – perguntou Lorens espumando pela boca e fitando o dragão com olhos inundados em cólera.
- Eu? – perguntou o dragão em um tom de ironia que ele sequer tentava esconder. – jamais me arriscaria a desrespeitar o Belo-Povo, senhores de todas as terras do sul!

Os elfos presentes ali escutaram tudo e deixaram escapar um leve sorriso de satisfação no canto de seus lábios. Todos exceto Lorens. Ele não confiava em dragões e naquele dia não seria diferente, por mais gentil que aquele dragão lhe parecesse. “Esses monstros não são confiáveis, são mais traiçoeiros que kobolds” pensou o elfo.

- Então o que queres aqui no território de meu povo? – indagou Lorens em tom ameaçador.
- Estou apenas de passagem nobre elfo, eu não queria incomodar o desenvolvimento de sua raça. – disse vagarosamente o dragão, ele parecia não se importar com o que acontecia com os elfos. E isso irritava Lorens profundamente.
- Considera-se superior aos elfos dragão? – perguntou Lorens com o dedo em riste.
O dragão pousou, abaixou-se, olhou fixamente nos olhos de Lorens, deixou escapar um sorriso irônico e calmamente disse:
- Não me considero superior nem aos elfos, nem aos humanos e nem aos anões. O único a quem devo superar sou eu mesmo. É para isso que todos nascem, é para isso que todos vivem, é buscando isso que todos morrem.

Essas palavras do dragão tocaram fundo nas almas de todos que ali estavam, aquilo não era normal em dragões, eles costumavam ser mais convencidos do que os elfos. Cada vez mais Lorens imaginava que aquele dragão seria diferente. E isso não lhe agradava, uma criatura que se colocava em seu lugar como aquele dragão, incitaria ainda mais a vaidade dos elfos, e isso os trairia.

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Uma resposta para “Lorens e o Dragão – Parte I”

  1. [...] Essa é a continuação de Lorens e o Dragão – Parte I. [...]

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