Um Contrato com Deus e Outras Histórias do Demônio
Publicado por Marco Rigobelli em 22/06/2009

Se quiser queimar, pense duas vezes e me dê seu exemplar
Qual não foi minha surpresa quando assistindo um SPTV vi a matéria sobre o pedido de recolhimento de uma das maiores obras-primas da história dos quadrinhos, Um Contrato com Deus e Outras Histórias de Cortiço. Obra definitiva do mestre Will Eisner, criador de Spirit e responsável pela definição das Histórias em Quadrinhos modernas como elas são.
Um Contrato com Deus definiu o formato de quadrinhos que temos hoje conhecido como “Graphic Novel”, Romance Gráfico em português. Formato geralmente auto-contido, algumas vezes seriado. Mas sem nenhuma necessidade periódica nem de limite de páginas. Material de maior qualidade, geralmente colorido, com texto mais maduro e enredo mais denso. São como livros narrados em quadrinhos, feitos para serem assim.
Mas qual é a da Graphic Novel ter aparecido no jornal local da Rede Globo? Antes que afirmem, não foi para falar bem, pelo contrário. Na verdade foi pelo mesmo motivo que a ótima obra Dez na Área, Um na Banheira e Ninguém no Gol virou notícia no país. Sim, Um Contrato com Deus estava na lista do PNBE (Programa Nacional Biblioteca da Escola).
Agora você leitor conhecedor de quadrinhos que solta um imenso WHAT THE FUCK!? Neste exato momento. Peço que volte ao seu estado normal, por mais bizarro que isso seja.
O problema já começa com um fato que se tornou óbvio: ou ninguém do PNBE lê as obras escolhidas ou se leem, tem um conceito moral, no mínimo, discutível. Um Contrato com Deus e Outras Histórias de Cortiço não é uma história para crianças, mal é uma para menores de 16 anos sem supervisão! E ela foi disponibilizada gratuitamente para as bibliotecas escolares para crianças de 14 anos! Sim, o país da piada pronta ataca novamente.
Tudo começou quando Dez na Área, Um na Banheira e Ninguém no Gol ganhou as páginas da internet e vejam só, até as dos jornais por estar nessa mesma lista apesar de seu conteúdo repleto de pornografia e palavrões, muito mais pesado que o de Um Contrato com Deus e para crianças ainda mais jovens, 12 anos. Imagino o que disseram quando esse passava pela aprovação da PNBE:
- Veja só! Que bonitinho! Um gibi de futebol, esse na capa parece o Menino Maluquinho, não parece?
- Pior que parece sim!
- As crianças vão adorar! Esse vai pro pessoal da 5ª série!
- Carimbado! Então, viu aquele A Fazenda que vai estrear?
- Pô man, vi!
- Deve ser o maior desafio intelectual que já vi na minha vida, cara!
- LOL…
Enfim, tudo chegou a o que temos agora, quando o vereador Jair Brugnano (PSDB/PR), da cidade de União da Vitória, pediu para que a obra seminal de Will Eisner fosse retirada das escolas, pelo seguinte motivo nas palavras dele em declaração ao jornal Gazeta do Povo: “Esses livros não condizem com a realidade da educação. Os termos neles são vulgarizados e tem até trechos de pedofilia. Acho inadmissível gastar dinheiro público para colocar pornografia nas escolas públicas”.
A Secretária de educação da cidade e, vejam só que conveniente, esposa do acima citado concorda: “Os livros chegaram e foram direto para a biblioteca, só depois vimos. Se o MEC manda, a gente confia que é bom“, disse ela ao jornal paranaense.
Essa polêmica toda se baseia em duas cenas da Graphic Novel, pra variar, citadas completamente fora de contexto para justificar a opinião daqueles que são contrários
Em uma, uma menina de dez anos levanta o vestido e mostra a calcinha para o síndico do prédio onde mora. A estratégia, não lembrada nas declarações, é para roubar o dinheiro dele. Como podem observar, as insinuações de pedofilia vem daí
O outro momento polêmico, é onde um pai bêbado toma o bebê das mãos da esposa e o arremessa no sofá. Depois, bate na mulher.
As duas cenas integram contos diferentes da obra, ambientada na vida dos cortiços nova-iorquinos da década de 1930. Foi onde o autor nasceu e passou a juventude.
Mas como se isso não pudesse ser mais bizarro, esse bafafá todo chegou até a blogs religiosos que [pausa para plot-twist] consideram Um Contrato com Deus, coisa do demônio!
Como diz o blog Holofote: “Infelizmente, por ser PASSIVA (não confundir com pacífica), a sociedade brasileira tem deixado o Poder das Trevas colocar em execução tudo o que foi planejado nas profundezas do inferno e simplesmente, diante de tudo isto, tem dormitado em berços esplêndidos”. Extremamente bem intencionado e não preconceituoso, concordam? Afinal, burrice é mesmo coisa do demônio e devemos queimar todos eles, com tochas e ancinhos, preferencialmente.
Um Contrato com Deus e Outras Histórias de Cortiço é considerada por todos como o trabalho mais importante da carreira de Will Eisner, influência para praticamente todos os autores de quadrinhos que hoje conhecemos e responsável para abrir as portas que deram a Mauz, por exemplo, o prêmio Pullitzer. A Graphic Novel foi lançada nos Estados Unidos durante os idos de 1978 quando Eisner decidiu lançar algumas publicações focadas no público adulto. Ela tem quatro contos, um deles o que dá o título para o tomo. Lançado por diversas vezes no Brasil, sendo que a última foi pela Editora Devir em 2007.
Fontes:
Omelete: http://omelete.com.br/quad/100020387/Graphic_novel_de_Will_Eisner_gera_polemica_em_bibliotecas_brasileiras.aspx
Blog dos Quadrinhos: http://blogdosquadrinhos.blog.uol.com.br/arch2009-06-01_2009-06-30.html#2009_06-20_00_53_21-135059040-27
Compre “Um Contrato com Deus e Outras Histórias de Cortiço” no Submarino por R$ 41,50.





Milton Sacramento disse
Coisa do demônio é a absurda pretensão de realização de copa do mundo no Brasil, onde grassa a ignorância e o analfabetismo funcional, o qual, como demonstra a deslocada citação do colendo edil, é pior que o analfabetismo absoluto.
Milton Sacramento disse
Por que a emissora, antes de publicar a matéria, não ouve primeiro a outra parte, a editora, já que o autor é falecido?
Onde fica o direito de resposta?
Chama mais atenção o nepotismo que envolve o vereador e a mulher.
E falta de profissionalismo funcional dos jornalistas e editores do sptv.
Any disse
Ora, a publicação no sptv é digna de burros.
O envio da obra a crianças sem antes ter sido lido é coisa de burro.
Vereador, jornalista e MEC sequer ouviram falar de Will Eisner. Será que dá pra esperar alguma coisa.
Outro dia vi num jornal o jornalista mostrando a venda da marvel para a disney. Só que as imagens só apareceram personagens da DC. Super-homem, batman e Mulher-maravilha.
É brincadeira..