Ideias Soltas no Ar

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Enchendo linguiça no cinema brasileiro

Publicado por Marco Rigobelli em 28/10/2009

O cinema brasileiro atual é uma merda. Sim, começo com os dois pés no peito. Principalmente dos que adoram gritar para os ventos, o sol e a lua quão superior o cinema made in Brazil é dos enlatados de Hollywood.

Tenho uma coisa para te dizer: Não, não é mesmo.

Não que eu não goste de nenhum filme nacional, gosto muito de Cidade de Deus, Tropa de Elite, Lisbela e o Prisioneiro, O Coronel e o Lobisomem. Sabem o que todos esses filmes tem em comum? Eles tem uma linguagem de cinema. Não de uma novela em longa-metragem. E esse é o trunfo do cinema norte-americano.

Parece estúpido, não é? “Linguagem de cinema”. Por mais estúpido que seja, essa é a verdade. Mas tem uma justificativa.

O áudio-visual brasileiro sofre de um problema sério, que mora primordialmente na minha área, a de roteiristas. Muitos dos autores de novela no começo dos anos 1950, vinham dos dramas de rádio onde tudo era descrito e transmitido por áudio e diálogos. E eles acabaram levando esse vício para a tele-dramaturgia que por sua deu de herança para o cinema.

Não precisa de muito esforço ou mesmo de muito mais do que cinco minutos assistindo uma novela ou filme nacional para perceber que eles falam demais. E não só isso, mas grande parte do excesso de falas é constituído de frases e textos completamente desnecessários. Repetindo o óbvio, chamando sua atenção para o desinteressante. Isso pode não ser notado pelo público médio, mas é sentido, você vai ficando cansado, perdendo a atenção no filme, pensando em outra coisa. E por mais interessante que a cena seja, os diálogos exagerados antes, durante e depois dela simplesmente geram uma ojeriza subconsciente ao espectador.

Te faço um desafio: Assista a qualquer filme brasileiro, de qualquer época. Então conte quantas redundâncias existem nas falas. Vai se surpreender. São muitas, exatamente pelo motivo acima explicado.

Não, não que redundâncias devam ser exorcizadas do cinema, de forma nenhuma, mas elas devem ser usadas quando a cena pede, quando o personagem a usaria. Não a todo momento. Falta ao roteiro do cinema nacional mais objetividade e menos linguiças enchidas. Você tem cerca de 90 minutos para contar uma história com áudio e vídeo. Aproveite isso da melhor maneira possível.

O bom cinema agradece.

Compre os melhores filmes (ou não) do cinema nacional.

6 Respostas para “Enchendo linguiça no cinema brasileiro”

  1. LUIZ disse

    Também sou do grupo que acha o cinema nacional uma bosta. Mas um filme brazuca me chamou atenção ultimamente. Ele contrasta em gênero de todos os filmes brasileiros que vi, ou pelo menos tentei, até hoje. Chama-se Besouro.
    http://www.youtube.com/watch?v=BLettyTrWfU

    Olhe o trailer.

    • Marco Rigobelli disse

      Eu assisti Besouro, e me decepcionou bastante. Ele se vende como um filme de ação nos moldes de Matrix e O Tigre e o Dragão.

      Mas todas as cenas de luta somadas dão cinco minutos, o que no meu conceito é extremamente frustrante para o que esperava do filme.

  2. rafagoom disse

    Eu tenho medo do cinema nacional.
    Meu filme nacional preferido é Bicho de Sete Cabeças. Elenco, roteiro, linguagem das câmeras são bem tratados, e o mais importante, o espectador não é tratado como simples repositório de idéias, quer dizer, diálogos expositivos desnecessários.
    Normalmente esse problema ocorre nos filmes da Globo Filmes, que seguem o padrão “novela de 60 min”. Preciso me aprofundar nesse quesito, mas acho que tenho um pouco de razão.

    Abs o/

  3. Marco, a “Linguagem de Cinema” e “Linguagem de Novela” são a mesma Linguagem, a “Linguagem Audiovisual”. Então tenha em mente que Novelas e Filmes usam a mesma linguagem, uma linguagem aúdio-visual-verbal.

    Porém, há sim diferenças entre os dois produtos, mas o fato das novelas serem mais faladas que o cinema – no mundo todo, não só no Brasil – não se deve ao fato que os “autores de novela no começo dos anos 1950, vinham dos dramas de rádio”, e sim, pela particularidade do formato televisivo. A atenção do espectador, o tamanho da tela, etc.

    Cito Jorge Furtado: “É natural que a diferença de atenção do público de cinema e de televisão provoquem diferentes usos da mesma linguagem. O cinema, como disse Jean Claude Carriére, “ama o silêncio”. A sensação de ver, numa grande tela, no escuro, é mais que suficiente para causar encantamento. A televisão odeia o silêncio. A imagem na televisão precisa constantemente da muleta do som e quase sempre da palavra. Não basta mostrar a faca, é preciso dizer, “Olhe, uma faca! Aqui! Na mesinha da sala, ao lado do vaso, está vendo? É uma faca! Não mude de canal! Não desligue, por favor!…”

    E repare que os profissionais que escrevem os filmes brasileiros não são os mesmos que escrevem as novelas, então sua análise é duplamente equivocada. Mas isso não quer dizer que sua impressão de que os roteiros são ruins não seja verdadeira, apenas sua tese do porquê isso acontece, não se sustenta.

    E filmes muito “falados”, ou seja, que a palavra carrega a ação, não são necessariamente ruins. Vide Juno, ou os bons filmes do Woody Allen.

    Fernando

    • Marco Rigobelli disse

      Compreendo e concordo. Mas quando ligo a TV com a novela não é pelo fato de ter os mesmos autores, mas por eles terem os mesmos vicios.

      E esse vício não é só pela justificativa que usei no texto, mas também pelo volume de novelas produzidas ser muito grande enquanto que o de filmes não chega nem a 1/3 disso dando não só aos autores, como aos atores vícios comuns de se ver nas telenovelas.

      Novelas podem ter diálogos redundantes por durarem pelo menos um ano no ar, cinema não por durar uma hora e meia.

      E eu adoro filmes carregados em diálogos. Meus textos o são e tanto os filmes por você citados quanto filmes do Tarantino são meus favoritos exatamente por isso. Minha crítica vai justamente ao excesso de uso do óbvio no diálogo, dizendo o que o espectador já está vendo e entendendo sem precisar de palavras.

  4. Leonardo Petersen Lamha disse

    Eu, como estudante de Cinema, concordo e discordo.
    Uma “bosta”, o cinema brasileiro não é. Eu diria que ele tem muitos vícios, e grande parte deles diretamente ligados a questão do roteiro. Outra talvez à uma estética da fome ou da pobreza. Outra a um grupo de cineastas que parece viver ainda a Nouvelle Vague, não conseguem largá-la.

    O Fernando Marés disse praticamente tudo.
    Dizer que é uma bosta é no mínimo não estar acompanhando certos filmes nacionais ultimamente. E nem tão ultimamente ainda. Cito dois, um de 2000 e um recentíssimo: Lavoura Arcaica e À Deriva. Sem contar o Jorge Furtado (qualquer um dele) ou a penca de filmes que aparecem nos festivais e que, infelizmente, seu destino é o obscurantismo.

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