O triste fim
Em cerca de vinte mil anos de civilização e por volta de doze mil de produção cultural, pode-se contar nos dedos das mãos quantas obras tiveram finais que foram algo além de melancólicos ou depressivos. Todos os finais felizes vêm acompanhados de perdas ou situações difíceis que tiram parte do prazer que deveria haver neles. Mas mesmo para a melancolia da despedida há um limite. Marcos, com sua despedida e o fim da carreira, chegou nele.
Não que o goleiro tenha se despedido dos gramados numa situação deplorável, onde a metáfora perfeita envolveria ratos, trapos e o banco de uma praça. Claro, teve seus momentos ruins, mas eles estavam bem longe do fim de sua carreira. Não fosse pela contusão que atuou como seu nêmesis em quase toda a carreira e pelas ótimas atuações que seu reserva vinha apresentando, terminaria o Campeonato Brasileiro jogando e figurando entre os melhores.
A tristeza vem da situação na qual o maior símbolo que o Palmeiras teve nos últimos vinte anos deixa o clube. Sem poder se despedir com títulos, ou ao menos com algum orgulho além da história que teve. A saudade que deixará é, graças a esta situação, ainda maior do que o normal. Vai embora o último símbolo de quando o Palmeiras não esquecia o tamanho que tem. Quando ainda que a política fosse tão desordenada quanto ainda o é, o clube tinha um foco, sabia para onde ir e o que fazer.
O Palmeiras perde um símbolo dentro dos gramados. O futebol também.
Marcos não era só goleiro do Palmeiras, de certa forma ele pertencia ao país todo. Nunca vi alguém que ousou levantar a voz para dizer um “a” sequer contra ele, porque não tinha o que dizer. Ele fala o que pensa, não procura fazer inimizades, nem brigar com outros por qualquer motivo que seja diferente do que acha correto. A simplicidade que sempre lembra que podemos tirar o capiau da roça, mas nunca a roça do capiau. Marcos não é só o símbolo de um Palmeiras melhor, é o representante de um futebol mais divertido, menos pragmático, chato e sem graça; talvez o último deles.
Mas agora acabou, uma hora isso teria que acontecer. Ele infelizmente não jogaria pra sempre, cedo ou tarde deixaríamos de ver os milagres do Santo e rir ou enervar com ele desabafando. A torcida do Palmeiras vai ter que se acostumar a não mais contar com ele na hora do pênalti, ou quando a situação aperta; a diretoria também não mais pode esperar que ele tome para si todas as críticas e a responsabilidade de uma crise ou derrota. Sem mais agradecimentos quando defende um pênalti, erres puxados, a camisa 12 que aprendemos a venerar, sem mais coros e esperança de um bom resultado apenas porque ele estava embaixo do gol.
O futebol vai precisar se acostumar a viver sem um daqueles que melhor lhe serviu de exemplo e o palmeirense reaprender a andar num mundo que agora lhe parece ter perdido a gravidade.
