São Paulo
Sete e quinze da manhã quando começo a tamborilar o teclado para escrever esse texto e estou acordado desde, não sei, por volta das cinco e meia? É, mais ou menos isso. Hoje é feriado em São Paulo, aniversário da cidade, e ainda assim estou de pé tão cedo. Paulistano é o tipo de cretino que mesmo no feriado acorda em horário comercial e está satisfeito com isso, não importando que por hoje ser feriado, tenha ficado até tarde no bar, enchido a cara, ido à desforra e não deitado em berço esplêndido e raio vívido como normalmente se obriga a fazer devido o chamado do dever que grita já antes do dia seguinte. A verdade é que — a não ser que esteja fora de seu território — o paulistano não reconhece um feriado nem que este lhe seja esfregado na cara, respingue no peito e suje o chão. Porque ele só vai ver o chão sujo e a camisa manchada.
A melhor parte disso tudo, é que tal mania irritante faz parte da magia dessa cidade. O povo daqui sabe sim se divertir, mas por que esperar pelo fim de semana, as férias, o feriado, quando isso pode ser feito todo dia? Ora, não há neste mundo que os olhos alcançam nada mais relaxante que cerveja gelada e conversa de bar, e isso pode ser feito a qualquer hora do dia, todo dia. Tem que acordar cedo no dia seguinte? Tudo bem, não importa, nós descansamos quando morrermos ou quem sabe no fim de semana.
São Paulo é como uma mulher linda que todo dia acorda descabelada, de cara lavada e acha por bem ficar assim mesmo. As pessoas se incomodam no começo, até fingem se importar, avisam ela de seu estado, mas em alguns dias passam a apreciá-la exatamente assim, porque essa é sua natureza. Os que não se acostumam com a moldura acinzentada de asfalto e concreto logo vão embora, ou ficam presos a São Paulo e acumulam suas frustrações pela cidade; já os que por essa mulher se apaixonam, nunca mais a querem deixar. Essa cidade colossal, multicultural e única é ao mesmo tempo o melhor e o pior lugar do mundo para se viver, para onde as pessoas vão só pra trabalhar, pra construir suas vidas ou para encontrar uma na qual se encaixe. São Paulo é tão cheia de histórias e uma musa profusa em outras ainda a se contarem que é praticamente impossível passar por ela e jogá-la numa sentença entre vírgulas.
São Paulo sempre vai lhe tomar um capítulo inteiro.
