Idéias Soltas no Ar

Aqui as idéias ainda têm acento e ninguém vai obrigá-las do contrário.

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Tudo o que via, via como se estivesse observando através de um vidro embaçado.  Notava luzes de diferentes tons e intensidade, algumas que pela janela passavam apressadas e outras que lá paravam e por vezes eram interrompidas pelos vultos que as conduziram. Ele tentava entender o que acontecia, sentia o corpo todo, mas era incapaz de movê-lo, ouvia a tudo embaralhado, sons eram incompreensíveis e diálogos quase códigos. A pele sentia leves gotas de chuva, o corpo parecia úmido e vez ou outra percebia a respiração de alguém contra o rosto, alguém que não podia ver ou entender.

Lembrou-se da infância, da vez que caíra de um barranco enquanto tentava conquistá-lo com as próprias mãos e todos os conhecimentos de alpinismo que um garoto de oito anos suporia ter. A memória o levou ao momento em que, eufórico por perceber o topo, pisou em falso, sentiu a gravidade recuperar o controle da situação, as pernas bambearem e o corpo ser arrastado barranco abaixo enquanto os braços debatiam-se atrás de alguma sustentação que em nada deveria se parecer com o capim que ele encontrara na queda e no qual tentava se segurar sem qualquer êxito. A queda não deveria ter mais que oito metros, mas existe uma mágica em rolar ladeira abaixo — sentindo a pele ralar — que faz o tempo passar diferente aos seus olhos. O que na verdade durou meio segundo, para ele foi interminável, tinha a sensação de horas e os efeitos mais debilitantes possíveis. Tanto que, ao cair, permaneceu imóvel por algum tempo, como sentia-se agora. Mas naquela ocasião via o mundo girar, a consciência lhe fugir e os joelhos arderem.

Ouviu o urro de uma besta acompanhada de luzes piscando e mais vultos. Sentia que tocavam seu corpo, testavam seus sentidos e estudavam suas reações. Era capaz de enxergar cores, mas por algum motivo não era capaz de lembrar quais cores eram. Sentiu um espasmo na perna direita, o que gerou uma tontura e chamou a atenção das sombras que dirigiram-se até ela, juntando-a à perna esquerda. Seu coração palpitou, a consciência vacilou e ele sentiu-se hiperventilando. Queria levar as mãos ao peito, mas por algum motivo não conseguia movê-los só sentir. Os vultos tentavam falar com ele em um idioma que ele não tinha certeza se não compreendia ou se só conseguia ouvir como um balbucio.

Remeteu-lhe à adolescência, quando esteve entre as pernas de uma mulher pela primeira vez. Sentia o corpo todo tremer, em alguns momentos a ponto de sair de seu próprio controle, não queria causar nenhuma impressão além de uma boa, então tentava distraí-la de seu nervosismo com os lábios um pouco mais praticados. A ele não importava que ela fosse tão pouco experiente quanto, seu único foco estava em ser para ela motivo de boas lembranças, na verdade, queria ser motivo de qualquer memória. A estratégia que adotou parecia estar correndo a seu favor, o corpo da menina também sofria de pequenos espasmos, sua respiração cadenciou e estava mais forte, a pele no rosto ardia e os olhos dela ganharam um tom que ele jamais seria capaz de descrever. As roupas simplesmente se desmaterializavam de seus corpos enquanto as mãos vasculhavam caminhos e desbravavam territórios até encontrar um ponto que lhe agradassem ou de onde arrancassem alguma reação. Ele sentia-se conhecendo a si mesmo pelas mãos de outra pessoa. Seu corpo ainda tremia, ele era capaz de sentir todos os membros, mas sabia que não tinha controle sobre quase nenhum deles, já que seus músculos agiam por instinto e impulso enquanto procuravam se satisfazer e arrancar suspiro dela. nessa oportunidade ele também sentiu a perna direita, que procurou a esquerda para que ambas dessem aos quadris mais sustentação. Até que no fim ele se enxergou dentro de um lugar do qual nunca mais iria querer sair. Era uma sensação de conforto e vida que lembrava-se de ter sentido antes, mas não quando.

Sentiu o peito convulsionar e as costas baterem com tanta força contra o chão que o ar foi exorcizado dos pulmões, os vultos reagiram a isso com pancadas contra o seu peito, eles pareciam se esgoelar, suas vozes cada vez mais distantes e abafadas pelo ruído áspero da chuva que caía voraz, procurando cada canto seco e cada corpo aquecido numa vingança pessoal que apenas ela entendia. Notou o corpo sendo movido, quase rolado, mas sem de fato sair do lugar. A água preencheu seu ouvido esquerdo até ser derramada quando foi deitado outra vez, prejudicando ainda mais sua audição e aumentando a incompreensão do que estava acontecendo. Ele tentou entender, lembrar, mas o corpo estava ocupado demais tentando respirar, ver e ouvir; ele queria ao menos pedir socorro, mas sua boca não o obedecia ou mesmo fechava. Sentiu o quadril direito arder em dor e o resto do corpo reagir a isso em choque enrijecendo e depois entregando-se. Convulsionou outra vez, conseguiu mover as pálpebras para apertá-las tentando segurar a dor que se espalhava aos poucos pelo resto do corpo fazendo-o sentir cada músculo, fibra, nervo e osso como jamais fora capaz de sentir antes.

Então lembrou de algumas horas antes, quando fez piadas com os amigos dizendo que se permanecesse assim mais algum tempo nem mesmo conseguiria levantar mais da cadeira e que não se importava com isso, porque sua causa era nobre. Ao homem para o qual todos os motivos merecem uma comemoração, os bons motivos são passíveis de desforra e foi o que ele fez. Bebeu, riu e festejou com os amigos a nova oportunidade que se abriu. Quando finalmente tentou levantar, cumpriu a promessa de quase não conseguir. Foi dançante até o banheiro, caminho que o obrigou a desbravar um lance de escadas que não lhe parecia tão grande da ultima vez que subiu. Ao chegar no topo, deu uma olhada desajeitada para a mesa onde os amigos estavam, quase escondidos atrás de tantas garrafas de cerveja, sorriu satisfeito e foi fazer o que tinha subido ali para fazer. Voltou e não permaneceu sentado por muito tempo depois, aos poucos alguns foram e outros deram a noite por encerrada junto dele. O caminho de volta agora estava repleto de incertezas e desmemórias, lembrou de algumas risadas, piadas maldosas com os amigos que o acompanhavam e pantomimas das quais só bêbados são capazes e que apenas eles entendem. A memória desvaneceu outra vez, levou-o alguns minutos a frente quando, ao dar um passo além do devido numa esquina sentiu a embriaguez ser arrancada do corpo pelo impacto do carro.

A dor continuava cada vez mais intensa, outras partes do corpo moviam-se por conta própria. Ele sentiu-se sendo içado do chão enquanto o peso de alguém apertava-o, piorando sua respiração. O outro corpo soluçava, parecia chorar, era incômodo, mas aos poucos ia ficando distante, assim como as dores que afastavam-se dele a medida que estava mais perto de uma luz forte e amarelada e do urro irritante que parecia engoli-lo e isso também ia ficando longe aos poucos. O mundo parecia se afastar, o silêncio e a escuridão o abraçar e a paz chegar.

Escrito por Marco Rigobelli

28/01/2012 às 0:05

Publicado em Contos, Idéias

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