O inimigo do livro
Tenho o costume de sempre carregar um livro comigo quando vou até algum lugar, gosto de aproveitar qualquer minuto ocioso que tiver para ler. O problema nisso é que por vezes acabo esquecendo o livro quando não devo. No começo do mês, o fiz e quando voltei, não mais encontrei meu Memórias do Subsolo lá – diferente do que qualquer um poderia supor, as pessoas roubam livros no Brasil.
Apesar de ser bibliófilo e egoísta entre tantos outros defeitos que dariam uma tabela, eu realmente não me incomodei. Porque querendo ou não, a não ser que quem roubou faça uma fogueira com o livro, ele(a) terá o melhor romance do Dostoiévisk para ler. Foi exatamente a sensação que tive mesmo: “se a pessoa roubou o livro, ao menos foi um bom livro”. Se isso a ajudar a procurar outros do Dostoiévisk para roubar (ou em uma hipótese remota, comprar), considero ter deixado o livro sobre a mesa do bar uma boa coisa.
Dias depois, vi o vídeo do Neil Gaiman comentando em sua passagem pela FLIP 2008 sobre distribuição digital e a pirataria de livros. E isso me puxou de volta para o fato já descrito. É um número ínfimo de pessoas que conheceram seu autor favorito porque compraram um livro que não conheciam. Ou alguém nos indicou, ou ganhamos de presente, ou pegamos emprestado, ou damos uma chance na biblioteca ou roubamos o que está dando sopa na mesa do bar. A questão é que ainda que tenha características nocivas ao mercado, a distribuição digital gratuita ainda é — em tempos de PIPA, SOPA e ACTA –, de certa forma um estímulo.
Todo mundo já consumiu música, filme, série, jogo, quadrinho, livro de maneira ilegal pela internet, o que diferencia o consumidor em potencial do que não consumiria de qualquer maneira é que, ainda que já tenha lido uma cópia pirata, quem gostou vai comprá-la, ou porque quer ter uma cópia de capa dura na estante ou só pra fazer do jeito certo e, quem não comprou, não o faria do mesmo jeito. Não, isso não é algo que se dê pra medir com pesquisas, vai de cada um. Mas consigo pensar em pelo menos dez pessoas que conheço e compram o livro, HQ, jogo, filme ou o que quer que seja depois de consumi-los gratuitamente pela internet.
De novo, lembrando o que Gaiman disse na FLIP, o inimigo dos livros e do mercado de livros não são aqueles que baixam da internet para ler, são aqueles que não lêem. Qualquer estímulo para a leitura, ainda que não envolva um livro comprado é bem vindo. Porque então, daí a consumir literatura é um pulo. Entendo que a pirataria de conteúdo trazida pela internet é prejudicial para um mercado que já não tem muito de onde conseguir ganhos. Contudo, não vejo divulgação melhor e mais barata. A obrigação das editoras é atrair os leitores para seu material pago ou físico, aproveitar-se da divulgação involuntária que a distribuição clandestina proporcionou e fazer isso valer.
Devemos mesmo focar antes em quem não lê do que em quem lê mas não paga. Esses são ainda piores, são os que se contentam com um blog ou o resumo da novela, são aqueles que se alguém emprestar um livro, eles não vão aceitar ou o encostarão num canto até o emprestador lembrar-se de pedir de volta. São os que não comprarão um livro mesmo depois de lê-lo gratuitamente porque nem se darão ao trabalho de procurá-lo. Antes de fidelizar o público, é preciso antes formá-lo.
