Prévia dos contos e cem livros em um ano
Bom, já disse que está a venda a antologia Caminhos Fantásticos com dois contos meus e que estou esperando chegarem minhas cópias para sortear uma delas. O que não fiz ainda foi mostrar um trecho deles. Bom, aqui vai:
Chamado à Razão
O garoto não se recordava do caminho até a capital ser da maneira que foi, nem que os guardas tivessem tão pouco critério na permissão da entrada de estranhos pelos portões, mesmo quando crianças. Mas ele acreditava que aquilo era a ajuda de Deus, que sempre chegava nos momentos certos e necessários, como o padre Marcus dizia.
Enquanto passava pelo mercado, lembrava o porquê de sua mãe preferir morar na fazenda, mesmo sem seu pai. Tudo ali era, por incrível que possa parecer, ao mesmo tempo corrido e imóvel. Corrido para as pessoas que procuravam aquilo que queriam comprar e imóvel para quem negociava o preço de seu desejo. Ele caminhava entre as pessoas, se esquivando, parando, girando, abaixando, esbarrando em cestas e barracas. Mas mesmo assim elas não percebiam sua presença, ou não se importavam. Algumas mexiam a boca, mas não tinham voz. Essas em especial chamaram sua atenção. Era esquisito, mas ele acabara de ver um dragão. Imaginava que poderia ser algum tipo de feitiço, e temia por isso, pois até então ninguém nunca havia visto um deles. Quem seria capaz de retirar o encantamento além da própria criatura?
Isso não teria importância nenhuma quando ele estivesse morto junto com toda a região. Primeiro chamaria SirJohann, depois pensaria em se livrar do feitiço.
Os guardas evitavam o mercado. A movimentação excessiva do lugar era propícia para gerar enganos e erros de julgamento durante um crime. Então toda a segurança dessa região tinha como base os Leões de Chácara, contratados em mutirão pelos mercadores. Enquanto a área nobre e eclesiástica por trás dos portões tinha guardas por todos os lados, fortemente armados e sempre alertas. Mas estranhamente, assim como os outros, pareciam não perceber a presença do jovem, que tentou olhar para dentro das casas a procura do cavaleiro, mas logo se deu conta de que não conseguia lembrar onde ele morava, e se o procurasse dessa maneira, demoraria a vida toda. A solução era vencer o medo que sempre teve desses homens de armaduras incômodas, com panos de cores vibrantes por baixo delas, que variavam de acordo com seu posto. Vermelho para soldados, verde musgo paracapitães e azul para generais. E o brasão da casa real: um cavalo com uma coroa de folhas estampado tanto na armadura, quanto nas partes expostas dos trajes e também em bandeirolas presas às lanças.
— Senhor, pode me dizer onde encontro Sir Johann? — perguntou ele com toda a educação que sua mãe lhe havia ensinado, enquanto, para chamar a atenção, dava leves puxões na calça de um dos guardas de fisionomia mais receptiva.
Maldição
Na verdade, todos os homens querem ser lembrados para sempre, todos temem apenas definhar em suas curtas e insignificantes vidas, todos querem ser eternos. E em meu tempo de vida, vi que isso é exclusividade de minha raça, elfos e anões não sofrem com isso. Eles não têm nossa ambição e nem nosso desejo de destruir para progredir, querem apenas viver em paz com o mundo que lhes abriga e alimenta.
Amaldiçoado sou eu por um dia desejar viver para sempre. E amaldiçoado eu fui, no dia em que realizei meu desejo.Vivi tantas guerras que poderia orgulhar meu pai por muitas vidas, e venci boa parte delas. Tive tantas mulheres quanto alguns séculos de juventude incorruptível podem me oferecer e esbanjei tanta adoração e admiração de pessoas que qualquer herói pode ter, mas tive mais!
Fui o herói de todos os heróis vivos, continuo lutando lado a lado com eles, mas sem a mesma virilidade, sem a mesma vontade de continuar. Nada mais é novidade para mim, vivi todos os tipos de combates, enfrentei todos os tipos de inimigos possíveis, fui adversário desde um jovem e imprudente ladrão até um gigantesco e imponente dragão. Venci todos! Mas não recebi nada por isso, não ganhei sequer um agradecimento.
“Ele é imortal, não tem como ser derrotado”, diziam alguns. De certa forma desleixada, e por que não, com razão. Minhas antigas glórias com o tempo já não tinham mais valor algum, o fascínio que aquelas pessoas tinham por mim se transformou, de forma lenta e agonizante, em falta de interesse. Senti que minha glória da imortalidade incomodava os mortais, eu não era louvado, adulado ou simplesmente admirado. Era odiado. Me chamavam de arrogante e vaidoso, diziam que eu me considerava superior a eles, que não passavam de insetos insignificantes na vida de alguém que já havia ultrapassado a idade dos elfos! De certa forma, eles têm razão. Sempre me considerei superior, e achava inevitável que todas as pessoas sem minha “dádiva” me observassem com respeito e admiração. Mas queria mais, queria ser um Deus!
Irônico de minha parte, eu nunca acreditei em deuses e mesmo assim quis ser um. Minha ambição realmente era muito maior do que o normal, assim como meu pai disse, mas foram dele também as palavras que diziam:
“Ela um dia te levará a glória”.
Enquanto isso, no inicio do ano comecei o projeto de ler cem livros em um ano e transformar cada um deles em uma crônica. As duas primeiras estão lá, outras virão. Só acompanhar o Tumblr Cem livros, um ano.
