Idéias Soltas no Ar

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Crise dos Finitos Editores

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Os quadrinhos brasileiros não são um mercado. Nessa primeira década do século XXI está começando a se tornar um, quase que por osmose, dado o fato da quantidade de autores tornar-se tão grande que o mercado estrangeiro não consegue dar conta de sua demanda, entupindo o submundo independente de obras e fazendo-as serem notadas já há tantas que algumas vão eventualmente ganhar a mídia. Isso, por consequência, faz as editoras os notarem, se interessarem e publicarem trazendo-as ao grande público, ou ao menos ao público que give a shit pra isso. Toda essa cadeia de fatos nos trouxe ao que vemos nesse fim de 2009: Um falso mercado.

Hoje temos revistas escritas, desenhadas, colorizadas, idealizadas, arte-finalizadas, publicadas e editadas inteiramente por brasileiros. Tudo aos trancos e barrancos, mas de alguma forma tem que começar.

Calma lá, eu disse editores? Não, esqueçam. Não existem editores de quadrinhos no Brasil, nem um puto sequer. E quando digo editores, não me refiro somente à pessoa que tem o nome abaixo da função supracitada no expediente da publicação. O editor não é só o chefe dos autores, ele é na verdade um deles. O trabalho do editor em uma história em quadrinhos ou em um livro é a de controle de qualidade, já que o único trabalho do escritor, do roteirista e do desenhista é contarem a melhor história que puderem, o ideal é que nenhum deles deva se preocupar com como o leitor vai receber ou entender a história, só em colocá-la no papel. A parte chata, de dar limites, caminhos, idéias e definir um público cabem ao editor. E em qualquer obra literária (lembrem-se, quadrinhos são uma forma de literatura) cabe a ele supervisionar o trabalho e indicar o que está sendo feito certo e o que não deve ser sequer pensado. E não é algo que passa despercebido, uma decisão errada do editor pode comprometer toda a obra.

Joe Quesada que o diga.

E infelizmente, não temos isso aqui no Brasil, nem nunca tivemos, todo esse trabalho cabe aos autores da história que já não sobrecarregados o suficiente com o trabalho de desenvolvê-la, precisam pensar também na logística e no público. Sim, existem aqueles que acumulam essas duas funções por opção própria, mas quero que perguntem para qualquer quadrinhista/escritor se eles querem acumular as funções. Poderá contar nos dedos quantos vão dizer que sim e nos dedos de uma mão quantos são capazes de fazê-lo, mesmo querendo.

O motivo disso se dá ao fato de os únicos editores de quadrinhos que temos serem todos habituados a já receber as revistas estrangeiras prontas. Suas únicas decisões são sobre distribuição, tiragem e tradução. Isso não dá a ninguém a experiência e o conhecimento de mercado necessário para se exercer a função como ela deve ser exercida.

Não que não exista nenhuma pessoa capaz de fazer isso, conheço muitas que conseguiriam com maestria. Mas aí esbarramos em um problema mercadológico:

Não temos obras suficientes sendo publicadas para as editoras contratarem editores de quadrinhos e para esse trabalho, um contrato freelancer não é muito adequado já que o editor precisa pensar pela editora, ele tem que obrigatoriamente defender a camisa. E convenhamos, publicando dois ou três encadernados por ano, ele não teria muito que fazer e se tornaria um elefante branco na folha salarial. Aqui entramos num paradoxo: O mercado precisa de bons editores especializados para crescer, mas precisamos de um mercado ativo para arcar com esses editores.

A saída mais óbvia é um editor que tanto sirva para importados quanto para os nacionais. Ele não acumularia tanto trabalho, só teria que ficar atento aos dois mercados. Fica a sugestão.

E aqui chegamos em outro fato preocupante. O mercado literário brasileiro, fértil em grandes autores, vem sofrendo de um problema parecido. Sim, há ótimos editores aqui, nosso problema reside na internet. Cada vez mais autores tem se deslumbrado com a liberdade que ela proporciona, fazendo-os publicar a obra por conta própria. Isso gera os mesmos problemas já citados. Existe nesse mercado independente obras muito boas, mas que pecam pela falta de um editor, o que é sentido durante a leitura da mesma.

Posso citar coisas como o estilo da narrativa mudando bruscamente de um capítulo para outro, caminhos mal escolhidos para se conduzir personagens e por aí vai.

Escrito por Marco Rigobelli

18/12/2009 em 17:45

Publicado em Devaneios

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Campeonato de pontos corridos é um Romance

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Já falei de futebol por aqui, eu sei. Mas da outra vez não estava sob contexto algum, então considere esse o primeiro texto sobre o esporte bretão nesse sítio em que você gasta seu precioso tempo.

Enfim.

O Brasileirão 2009 tem sido um dos campeonatos mais emocionantes e disputados que me lembro de ter visto desde que me entendo por gente. Isso esfrega na cara dos defensores do mata-mata uma das justificativas que eles até então defendiam contra os pontos corridos. A falta de emoção. Bom, estamos a caminho da última rodada e o virtual campeão agora é quarto colocado e perdeu as esperanças enquanto o quarto colocado voltou a sonhar com o título e um time que todos diziam só brigar pelas posições intermediárias se tornou o principal candidato ao título.

Isso por si só transformaria o campeonato de pontos corridos, mais especificamente o desse ano de 2009, em um épico com o fim que faria jus a todo seu decorrer.

Mata-mata é o paralelo literário do conto. No qual o começo existe basicamente para guiar a história ao seu final em um período curto, colocando na conclusão a responsabilidade de causar impacto ao público. Não por falta de recursos ou qualquer coisa do tipo, mas porque em histórias curtas é a maneira para torná-la memorável aos leitores. Quando você lê um conto, já o faz sabendo que seu final é o momento crucial para decidir qual sua qualidade.

Os pontos corridos são o resumo esportivo de um romance. Extensos, cheios de arcos e personagens que servem a diferentes propósitos e que durante o andamento da história vão mudando de função, morrendo, se despedindo ou somente desistindo. O final ainda é fundamental, mas a forma que você chega nele é muito mais importante.

E o campeonato desse ano é o exemplo de que grandes romances não dependem apenas de grandes protagonistas, mas dos acontecimentos envolvendo eles. Algo tão importante que não parece ter sido levado até ali pelos seus personagens, mas o contrário.

O campeonato foi marcado por plantéis e individualidades nivelados por baixo, mas que mesmo assim não cansa de surpreender e causar paradas cardíacas Brasil afora, unhas se tornaram item de luxo, discussões de bar ficam mais constantes que o normal e suas polêmicas vão durar o próximo mês inteiro. Só em uma obra trabalhada como um romance seria possível nós termos quatro personagens ainda lutando pelo mesmo objetivo sendo que a vantagem troca de mãos mais do que a vitória na Guerra de Tróia. Isso tudo foi acontecendo durante todo o decorrer e se intensificando em seu desfecho. Até mesmo derrubando gente de prédio sem intenção.

Já vimos torneios mata-mata fazendo o mesmo. Então querem continuar insistindo nesse ponto? Esse acabou de ser perdido para qualquer intenção de defesa a qualquer uma das modalidades de torneio.

Os campeonatos romantizados são muito mais justos e lucrativos para os Clubes. Além de evitar o problema de um buraco no calendário tão comum para os mata-matas, quando as equipes eliminadas nada mais tem a fazer além de assistir. Essa, aliás, uma característica dos contos com muitos personagens, cedo ou tarde alguns deles vão ficar sem utilidade na trama e serão simplesmente esquecidos, sem um fim que lhes seja justo. Se vai definhar e se perder na história, que seja enquanto todos os outros ainda têm algum objetivo.

Tanto o romance quanto o conto são ótimos, mas cada um na ocasião devida, afinal, a existência de uma das alternativas não exclui a outra.

Afinal, romance só se lê em longos períodos enquanto paralelamente vai lendo vários contos para ter algo de solução mais rápida na qual respirar.

Escrito por Marco Rigobelli

30/11/2009 em 17:04

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